João Donato
Instrumentista, cantor, compositor e arranjador
O Festival Cinema Brasil cria um vínculo do cinema, da música, da arte e de toda a cultura brasileira com o Japão. Existe muita coisa do Brasil ainda para ser conhecida e este evento contribui muito com a divulgação. Por isso, sinto-me honrado de participar deste festival com um documentário de curta-metragem (Nasci para Bailar – João Donato ao vivo em Havana) dirigido por Tetê Moraes.

Leia a entrevista de João Donato
O Festival Cinema Brasil foi meu primeiro contato com o país. Dialogar com uma cultura tão distinta é sempre intrigante. É como se chegássemos a um encontro de mãos vazias, sem referenciais, a não ser o senso comum – que sempre é superficial e limitado. Acho que esse Festival pode contribuir muito (e já está contribuindo) para uma aproximação entre esses povos tão distintos, mas que têm coisas em comum. É importante também do ponto de vista artístico e mercadológico, para que possamos dialogar com esse imenso mercado asiático. É como se todo ano, durante o Festival, se comemorasse a imigração–essa via de mão dupla que cada vez mais aproxima Brasil e Japão.
Ariane Porto
Cineasta
Ângelo Ishi
Jornalista, sociólogo e professor da Universidade Musashi, em Tokyo
Costumo dizer em minhas aulas e palestras que, no Japão, só conseguem entrar em circuito comercial os filmes brasileiros que exploram a pobreza, violência e a criminalidade. Central do Brasil mostrava, entre outras mazelas, o analfabetismo. Em Cidade de Deus, a própria favela era personagem principal. E por que o único documentário brasileiro exibido no Japão tinha que ser Ônibus 174, abordando o horrível seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro?

Isso prova uma clara exploração da miséria alheia. Apesar disso, devo admitir que Cidade de Deus foi um marco, para o bem e para o mal. Uma aluna minha disse que desistiu de viajar para o Brasil depois que viu o filme. Ficou com medo, mesmo sabendo que era ficção. Por outro lado, muitos alunos me disseram que ficaram impressionados, pois não sabiam que os cineastas brasileiros faziam filmes tão eletrizantes, tão cool. Ou seja, um filme de qualidade pode funcionar como um ótimo cartão de visitas, independente do tema e das imagens que mostre.

O grande significado deste Festival Cinema Brasil é que ele ajuda a mostrar a diversidade do povo e da cultura brasileira ao público japonês, sem deixar de lado os temas universais. O Festival certamente está contribuindo para que os japoneses descubram que o Brasil é capaz de produzir filmes de qualidade. O atual “boom da cultura coreana” no Japão começou com a entrada de bons filmes daquele país por aqui. Da mesma forma, o cinema pode vir a ser a alavanca para um “boom da cultura brasileira” no Japão.
Assim como os filmes japoneses não se resumem somente ao sereno mundo de Yasujiro Ozu, é evidente que as obras brasileiras não são todas sobre o agitado mundo do samba. Do mesmo modo que o mundo tem lá suas diversidades, os filmes brasileiros também as têm. A primeira coisa que temos a fazer é assisti-los, desprovidos de qualquer preconceito! Ou melhor, mesmo que se tenha algum preconceito, o negócio é assistir primeiro!

Costuma-se dizer que cinema é um idioma comum a todos no mundo, mas ao mesmo tempo é também peculiar àquele determinado país. Eu, na posição de diretor de cinema no Japão, gostaria muito de um dia poder me encontrar com estes cineastas que fazem filmes que retratam o Brasil de hoje, a fim de trocarmos experiências. Faço votos de que este Festival Cinema Brasil se consagre um sucesso cada vez maior daqui para frente.
Masahiko Nagasawa
Cineasta (filmes: Yoru no Pikuniku, 13 Kaidan, Koko ni Iru Koto, entre outros)
http://www.bookcafe.jp/
Ryuji Kagami
Astrólogo
Cidade e vida selvagem, cristianismo e magia
Corpos e almas ardentes que se fundem
Brasil, país de interseção de magias,
É de lá que são produzidas visões que
Influenciam em nosso dia-a-dia
Vamos! É hora de nos adentrarmos
Vivências que diluem nossas almas nos aguardam.

bdes Entrevista bddi
Um dos grandes nomes da música brasileira, João Donato é hoje reconhecido no mundo todo. Já tocou com grandes nomes, gravou dezenas de discos, compôs centenas de músicas e fez outras centenas de arranjos. Ele se prepara agora para uma grande apresentação ao lado da Orquestra Sinfônica de Moscou, ao mesmo tempo que cuida da produção de dois novos discos. Apesar da correria, João, 74 anos (completados em Tóquio no dia 17 de agosto) é uma pessoa serena. Chega a espantar tanta calma e simplicidade.

Mas pique não falta a esse instrumentista, cantor, compositor e arranjador, que vive sempre atrás de projetos e novas parcerias. João Donato transpira musicalidade e, um simples bate-papo pode virar uma nova composição para ele. Apaixonado pelo Japão e pela música cubana, ele participa do Festival Cinema Brasil 2008 com um documentário de curta-metragem (Nasci para Bailar – João Donato ao vivo em Havana, dirigido por Tetê Moraes), que mostra justamente uma viagem dele à Cuba.

Numa rápida passagem pelo Japão em agosto, ele conversou (calmamente) com a reportagem do Festival Cinema Brasil. Confira os melhores trechos da entrevista:

Qual a sua ligação com o Japão?
João Donato: Já vim umas sete vezes ao Japão, a passeio e também para fazer shows. A primeira vez foi através de um convite do Sérgio Mendes para um evento em Osaka, o World’s Fair – Expo 1970. Fiquei apaixonado pelo povo e pelo país, principalmente quando vi as flores de cerejeira e os templos de perto. Fiz muitas amizades com os japoneses – um deles é como um irmão, o Ogawa. A segunda vez que vim ao país foi a convite dele, só para passear. Fiquei um mês em Shinjuku, que sonoramente me lembra Tijuca (Rio de Janeiro). Conheci, na oportunidade, a cantora Lisa Ono, que me surpreendeu, pois conhecia muitas composições minhas. Algumas até que já não lembrava mais.
Depois, só fomos nos encontrar novamente quando ela estava preparando o sétimo disco. Ela queria gravar uma composição minha. Fui levar algumas músicas para ela escolher e, na hora de ir embora, na brincadeira, disse que a idéia era ótima: “Lisa Ono interpreta João Donato”. Ela levou a sério, mudou o projeto e gravou o disco (Minha Saudade – 1995) inteiro só com composições minhas. Por causa disso, vim mais uma vez ao Japão para mais uma série de shows por várias províncias, num grande tour.

O Japão é uma fonte inspiradora na hora de criar?
João: O Japão me inspira muito na hora de criar. A paz dos templos é algo maravilhoso. Lembro-me uma vez que vim ao Japão para passear e, todo lugar que íamos visitar, era só templo. Conheci dezenas de templos diferentes. Fiquei habituado com isso (risos). Mas é um lugar que você se sente bem. Você ouve o vento bater nas folhas das árvores. O silêncio é a grande música dos templos.

Além do Japão, o senhor tem uma forte ligação com Cuba. Por que gosta tanto da música cubana?
João: Quando fui para os Estados Unidos, em 1959, motivado pela minha dificuldade de tocar minha música no Brasil – achavam que minha música era muito avançada para a época, que eu era muito desafinado ou muito sei lá o quê (risos) –, descobri que o que procurava não estava lá. Fui para aprender o jazz e me decepcionei, pois não era um ritmo que se achava em qualquer lugar e não era também qualquer um que tocava. Aí disseram para eu procurar as orquestras latinas, que eram onde os grandes nomes do jazz estavam tocando. Por isso fui à Cuba e me apaixonei pela música local.

Quais são seus projetos?
João: Estou gravando dois discos atualmente. Um deles está em fase de mixagem. É um disco, ainda sem nome, gravado com um trio com percussão, que deve ser lançado no ano que vem no Japão. O outro é um tributo aos 50 anos de bossa-nova.

Gostaria de deixar uma mensagem para seus fãs japoneses?
João: Uma mensagem importante é fazer tudo com alegria, com prazer. Sempre quis saber por que os japoneses gostavam tanto de mim, queriam me abraçar e carregar no colo, e disseram que minha música os deixavam alegres. Então, acho que estou realizado como profissional, já que esse é o maior objetivo de quem faz música. E assim deve ser com qualquer profissão. Por isso, a importância de se fazer tudo com prazer.
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